“Enquanto está vivo, que outra escolha terá senão viver?”
Frankenstein é um projeto que há muito tempo vemos Guillermo del Toro expressar muito interesse em contar sua versão da obra clássica de horror romântico e assim sendo muito se especulou sobre a produção do artista sobre quais temas, visuais e abordagens ele escolheria para nos mostrar sua ótica para o personagem e a história.
E o diretor assim como o Doutor Frankenstein da obra cria de sua obsessão, um ser belo, imperfeito e absurdamente humano que convida a clássica história do monstro e do homem para o seu próprio mundo particular e gótico comentando sobre abandono de pais, morte e vida em uma grandiosa fantasia dramática sobre luto e perdão.
Victor Frankenstein (Oscar Isaac) é um brilhante, mas egoísta cientista que dedica sua vida para conquistar a morte e criar vida dando origem a uma Criatura (Jacob Elordi) que desafia a ordem natural da vida, porém as repercussões de seus atos causam tragédias para todos.
A produção se divide em três segmentos com um prelúdio e duas partes que trazem as visões da história tanto da Criatura como de Victor, ambos compartilhando de como enxergam a vida, suas perdas e o mundo ao redor deles.
E o trabalho do atores é fantastico em dar vida para os dilemas e dramas tanto na figura deturpada, caótica, mas humana de Oscar Isaac como na estranha, inocente e sensível da Criatura que é extremamente bem caracterizado pela maquiagem e próteses, mas possui maior força dentro das expressões singelas e complexas de Jacob Elordi.
Elordi em certo ponto ofusca até mesmo os demais atores do longa atuando com um personagem bem fora do comum de sua carreira e inserindo olhos cheios de vida e uma enorme fisicalidade nos gestos corporais que dizem muito mais que as palavras.
Se olharmos com atenção para a filmografia de Guillermo del Toro é possível perceber diversos ecos da Criatura e Frankenstein em suas obras, então no momento que ele conta sua versão injeta um apego gigantesco com os personagens e o mundo no nível de produção na escolha do visual sombrio e colorido, assim como luzes deslumbrantes que capturam a fantasia.
O trabalho de figurino sendo impecável ao lado dos cenários macabros, a iluminação sempre com uma dose de sombras nos personagens e mínimos detalhes como no forte uso das cores verde e vermelho que trabalham com os temas de afeto e violência.
A trilha sonora de Alexandre Desplat que colabora com del Toro desde A Forma da Água traz um tom minimalista com momentos pontuais mais extravagantes do gótico, horror e romantismo o que combinam com a abordagem entre o realismo e o fantástico.
O longa explora em detalhes as minúcias da relação de Victor com a Criatura em uma relação de pai e filho tóxica marcada por descaso e falta de empatia colocando os personagens em um ciclo de violência e dor de uma relação familiar problemática e que traz um elemento bem realista.
Os poucos embates entre eles são sólidos pois há um melodrama bem forte entre o puro e o impuro, um grande romantismo clássico que ao lado dos diversos elementos de estlização pop do del Toro faz do filme bem envolvente tanto no real como no fantasioso.
Frankenstein traz também certa riqueza pois diversas situações que remetem a vertentes da arte como quadrinhos, pinturas e música. Os diálogos remetem a trabalhos de Mike Flanagan no aspecto literário com monólogos e narrações e vemos também elementos de Bela e a Fera, Hellboy e A Colina Escarlate.
Mas como citado anteriormente, o filme é uma criação bela mas imperfeita. Há pequenos erros cometidos que o impedem certos momentoso como uma ou outra cena que a composição plástica do CGI que complementa como aspecto de fantasi não funciona de maneira adequada.
E o mesmo se pode ser dito de Mia Goth, a atriz traz alguns dos momentos mais lindos do cinema nos últimos anos e ao mesmo tempo acaba tendo um desenvolvimento menor em comparação à Victor e a Criatura. Há aspectos interessantes, ela se vê na criação de Victor e enxerga as pessoas como elas são de verdade.
Mas é bem interessante como a produção traz em uma escalação de duas personagens diferentes, isso contribui para a obsessão de Victor e até enriquece o personagem em paralelos de um “Complexo de Édipo”.
Guillermo del Toro nos leva para um mundo fantástico que nunca deixa de ser real em suas emoções e reflete sobre imortalidade, ausência paterna e trabalha dentro de pensamentos católicos de remorsos ao mesmo tempo que desafia o divino.
Todos vivemos em um mundo cheio de perdas como também de afeto, momentos como da breve participação de David Bradley reforçam a beleza do mundo em oposto as tragédias que perseguem Victor.
Frankenstein é uma obra de arte e um espetáculo sobre o humano e através da fantasia, do horror gótico e do romântico nos revela que há muito mais do que mortes e traumas, mas também existe amor e gentileza na vida.
É um longa que nos revela a escuridão e a luz da humanidade. Mas mesmo com tudo de sombrio que há nesse mundo, vale a pena viver e se conectar ao mundo.
O filme está disponível na Netflix.



















