
Em um mundo tomado por todo tipo de produções de heróis genéricas e com essa imagem bem grande no imaginário de figuras mais distorcidas como The Boys ou Injustice, o filme e o personagem iniciam derrotados e desacreditados com a grande pergunta sendo feita:
“Existe ainda espaço para Superman e bondade em nosso mundo?”
Superman tinha a complicada missão de resgatar um personagem, apresentar um universo e mais do que tudo criar sua marca em um mundo cínico que pode rejeitar atos de gentileza, um mundo de dúvidas e guerras. E um mundo onde já há muitos heróis.

Nada disso era fácil, mas James Gunn assumiu a responsabilidade pelo longa e escreveu e dirigiu essa história nos dando um dos melhores filmes de super-heróis em um espetáculo emocional, divertido e imaginativo que mostram muito mais do que Superman e a DC podem ser nas telas de cinema.
A trama do novo longa abraça os quadrinhos, mas condensa a experiência deles em abordagens cinematográficas, muito menos sobre agradar só um nicho e mais sobre traduzir quadrinhos através do conhecimento da direção e equipe com o cinema. A ideia aqui parece ser demonstrar um novo tipo de narrativa (talvez não tão inédito já que pode-se argumentar que os filmes de Gunn sempre seguiram um tanto dessa linha “quadrinhesca”), logo você se sente lendo quadrinhos mesmo que esse projeto não seja adaptado de nenhuma versão.

Esse sempre foi um grande trunfo de James Gunn nos seus projetos em capturar espíritos de quadrinhos e das editoras, mas também trazer suas alterações próprias e saber como entregar blockbusters bem produzidos e elaborados com aquele sabor bem clássico de uma boa sessão pipoca, mas que tem coração e consciência.
Assim que começa estamos em um mundo de fantasia onde muita coisa é possível, a fantasia é expressada por elementos fantásticos como robôs e um cachorro de capa vermelha, mas também por um visual de cores de Henry Braham na direção de fotografia que usa um ambiente bem solar, mas também evoca tons azuis e saturados sem esquecer de sombras demarcadas e de como usar da luz em diferentes momentos.
Há um bom humor e otimismo conforme somos levados pelo Superman (David Corenswet) a lidar com um conflito político entre Borávia, dita como uma aliada dos EUA e seu país vizinho, Jarhanpur. Paralelo à isso, o bilionário egomaníaco Lex Luthor (Nicholas Hoult) executa seus planos contra Superman. E então uma revelação faz com que o nosso super-herói seja levado para uma crise pessoal.

O mundo pode ser de fantasia, mas suas críticas e seus posicionamentos são muito reais e trazem um acidez na maneira como comenta sobre o mundo moderno. Superman pode parecer a versão da sua infância, mas ele é mais humano e esse é um mundo mais confuso que não aceita sinceridade, um cenário de ódio em redes sociais, bilionários com poder para influenciar a sociedade e guerras que ameaçam as vidas dos necessitados.
Mas também se trata de uma produção cheia de fluidez e diversão reunindo sequências ousadas que apostam em estilizações e imaginação, mas também trabalham imersão no uso da câmera destacando bem interações de atores ou a ação, um uso de trilha sonora bem forte e que não tem medo de abraçar um mundo de possibilidades como cinema.

Há espaço para diálogos que debatem o mundo, mas também é sobre romance e tensão sexual entre Lois Lane (Rachel Brosnahan) e Clark Kent, a crueldade e irresponsabilidade de Lex Luthor e o uso funcional de um grande elenco de apoio que mesmo não tendo arcos como Superman ou Lois deixam uma marca no longa.
Skyler Gisondo e Sara Sampaio são fantásticos nesse sentido como Jimmy Olsen e Eve Teschmacher, mas também Edi Gathegi como o Senhor Incrível e os doces pais humanos de Clark Kent vividos por Pruitt Taylor Vince e Neva Howell. Mas em meio a uma produção que vai da fantasia para a política e ficção científica imaginativa nunca se perde o olhar em Lois, Clark e Lex. Nicholas Hoult é o perfeito Lex Luthor, uma ameaça e que soa como uma grande sátira de Elon Musk, a audaciosa Lois de Rachel Brosnahan e seus questionamentos com sua relação com Clark.

E acima de tudo se trata de David Corenswet se tornando um astro ao encapsular a gentileza e a visão inocente de Superman, mas também através de como isso é expressado em relações com Krypto, pais, civis, namorada e outros heróis. Ao longo da aventura que explora escalas aumentando cada vez mais vemos ele em crise de identidade mas sempre disposto a ajudar qualquer forma de vida, ele reage emotivamente e também toma atitudes erradas.
Como é de costume nos projetos de James Gunn existem certas peculiaridades dele como diretor e escritor, entre eles está o seu dinamismo, cenários diferentes, um elenco grande (onde incluem muitos de seus parceiros de longa data) e seu enorme coração nos personagens de maneira a respeitar a síntese original de Lois, Superman e Lex e incorporar seu estilo.

O humor aqui não extrapola tanto como em outros projetos optando muitas vezes por um grande equilíbrio de gêneros passando por melodrama, ficção científica e até mesmo romance. Mas a comédia ainda é usada em momentos pontuais só que muito menos “sacana” e principalmente dentro de certas interações como em Krypto, Jimmy Olsen, Eve Teschmacher ou na “Gangue da Justiça” na química entre personagens como Mulher- Gavião (Isabela Merced), Metamorfo (Anthony Carrigan) e o Lanterna Verde, Guy Gardner (Nathan Fillion) que brilha muito em seus breves momentos.
Superman é uma produção sucinta e empolgada, mas também com momentos tocantes e críticos sobre a realidade em uma união de espetáculo com coração que ousa trilhar um caminho bem diferente de outros filmes de super-heróis ao mesclar o clássico sem ignorar oque se tornou a realidade atual.
Em um projeto onde existem variados experimentalismos nos usos de lentes de câmera, elasticidade no CG, cenários construídos e que passeia por muitos elementos fantásticos. O foco humano nunca deixa de ser o foco, uma batalha entre um herói e um vilão que é sobre a gentileza rivalizando com ódio e com uma guerra colocando vidas em risco.

Pode-se argumentar certos excessos visto que é um projeto bem pessoal e também que assume riscos com escolhas criativas, mas suas imperfeições são de certa forma bem humanas assim como o próprio Superman. É uma expressão bem única de seus artistas e condensa mensagens poderosas de que em um mundo cada vez mais questionador, duvidoso e sombrio talvez atos de gentileza sejam atos de rebeldia mostrando que sim, existe lugar para bondade, paixão e sinceridade.
O filme vem em um contexto onde há muito mais dúvidas e receios que o clássico em 1978, a sequência moderna em 2006 e a versão de 2013. Mas o caminho escolhido não é pelo tributo ou subversão, mas pela afirmação de seus valores como fantasia, temas e como personagem, mas jamais se esquecendo do que vivemos em 2025.

Superman se levanta icônico e com dúvidas ao tropeçar em atitudes, mas acreditando nas pessoas, no amor e nos seus ideais. Mais uma vez ele volta para nós e dessa vez não como um messias ou uma autoridade, mas um amigo.
Vale a pena sentir e lutar pelo mundo. Que venha a nova DC.











